“Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça” (Isaías 59.1-2).
mão de Deus
Em hebraico, a expressão “eis” (hen) pode ser traduzida como “atenção”, “observe”, “pare tudo e escute”. Ou seja, quando Deus anuncia algo, tudo deve parar, todos devem interromper seus afazeres e escutar o anúncio dos mistérios do Senhor do Universo. Esta Palavra de Deus, anunciada por meio do profeta Isaías, exige atenção, diligência e temor, pois somente Aquele que vive sabe aquilo que é bom, perfeito e agradável para nossas vidas.
Curiosamente, a palavra “mão” (yad) também traz a ideia de “mão aberta”, ao contrário de kaph, que representa a mão fechada. Ou seja, o profeta está anunciando que as mãos do Senhor estão abertas para agir, abrir portas, criar oportunidades e trazer à existência aquilo que não existe. Cabe ao homem escutar e praticar a Palavra do Senhor.
A mão de Deus não está encolhida (qatsar). O interessante é que esta expressão também pode significar “impaciente” (Nm 21.4); “Reter” (Jz 10.16); “Ceifar” (1 Samuel 8.12) ou “Estreito” (Ez 42.5). Ou seja, Deus não deseja destruir, ceifar ou reter nosso progresso material ou espiritual. Porém, o caminho do Senhor é estreito, e estar restrito a este caminho é condição necessária para a ação de Deus em nossas vidas.
A expressão hebraica para salvar (yasha’) tem sua raiz formada por duas letras, shin (“dente”, simboliza a ação de “esmagar”) e ‘aiyn (“olho”). Ou seja, a salvação é realizada por aquele que cuida, que pastoreia e que tem o “olhar esmagador”, pois Deus não permite que o lobo toque em suas ovelhas. O Bom Pastor protege suas ovelhas com seu cajado, instrumento usado não apenas para resgatar as ovelhas perdidas, mas para afugentar todo animal de rapina que tenta furtar o rebanho do pai.
Deus não está surdo (kavad), expressão que pode significar “pesado”, relacionada a kavod, “glória”. Quando estou em pecado, Deus fica surdo (kavad) diante de minhas súplicas. Quando estou em santidade, o Senhor me escuta e derrama sobre mim Sua glória (kavod).
O Senhor escuta nossa voz com seu ouvido (‘ozen), palavra cuja raiz é formada por duas letras: zaiyn(“foice”) e nun (“semente”). Deus está disposto a receber nossos sacrifícios de louvor e súplicas. Mas Ele não recebe nossa oferta de cereais se nós não colhermos, antes, a semente de Sua palavra com nossos ouvidos.
O verbo ouvir é peculiar. Em hebraico, shama’ é um dos verbos mais fortes da Bíblia, pois está implícito em umas das frases mais famosas na cultura judaica: “Ouve ó Israel o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6.4). Não podemos inventar um Deus para nós. Ele é o que é. Devemos conhecê-lo e seguir seus preceitos. E somente podemos fazer isso se o escutarmos. Para escutá-lo, precisamos conhecer Sua palavra.
Em hebraico, a palavra iniquidade (‘avon) também pode significar “torcer”, ou seja, “atitudes torcidas que nos prendem como cordas”. Deus anseia por libertar-nos de tudo aquilo que nos prende, que todas as coisas torcidas e destorcidas que existem em nossas vidas. Mas os nossos próprios pecados impedem que esta libertação efetiva ocorra.
Essas iniquidades fazem a “separação” (badal), palavra relacionada a bad, que significa ruim. Aquilo que é ruim é o contrário de bom (tov), e foi por isso que o único momento em que Deus não viu que era bom (tov) algo que criou nos primórdios foi quando houve separação (badal). A separação não é boa, ainda que, por vezes, seja necessária. Mas estar separado de Deus é a maior tragédia que pode ocorrer na vida de um ser humano. E somos nós mesmos que nos separamos do Eterno, quando pecamos e insistimos em viver uma vida pecaminosa. Cristo, porém, morreu na cruz para nos livrar de toda iniquidade, de toda culpa e nos reconciliar com Deus, pois ele mesmo é o Emanuel, ou seja, o “Deus conosco”.
É o pecado (chata’ah) que faz separação. Essa palavra traz a ideia de “ser achado em falta quando medido por uma corda”. A corda de medir é a Palavra. Foi por isso que Jesus disse: “a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia” (João 12.48). Quem conhece a Palavra, sabe o que deve fazer para não ser condenado, e estar em direta comunhão com o Pai.
Os pecados são capazes de cobrir (sathar) os ouvidos de Deus, de modo que não ouça nossas petições. O verbo hebraico em questão se relaciona à ideia de “estar ausente”. Quando pecamos, Deus nos deixa sozinhos, tendo que vencer a luta de cada dia por conta própria. Isso aconteceu em Israel, no início do livro de Juízes. O Anjo do Senhor, que havia tirado o povo do Egito e os conduzido em segurança por quarenta anos no deserto até chegar à Terra Prometida, abandonou o povo em virtude do seu pecado. Vejam o que diz a Palavra:
“O Anjo do SENHOR foi de Gilgal a Boquim e disse aos israelitas: — Eu tirei vocês da terra do Egito e os trouxe à terra que havia prometido aos seus pais. Eu disse: ‘Nunca quebrarei a aliança que fiz com vocês. Não façam nenhum acordo com os moradores desta terra. Pelo contrário, derrubem os altares deles’. Mas vocês não fizeram o que eu disse. Em vez disso, vejam o que fizeram! Agora eu digo que não tirarei este povo do caminho de vocês. Eles serão seus inimigos, e os deuses deles vão ser tentações para vocês. Quando o Anjo terminou de falar, todo o povo de Israel começou a chorar” (Juízes 2.1-4).
Vejam a consequência devastadora do pecado. Ele gera separação (badal). Mas Jesus, o “Deus conosco” é capaz de restaurar nossa comunhão com o Pai. Basta que nos arrependamos de nossos pecados e vivamos uma vida de acordo com os parâmetros da Palavra de Deus.
:: Daniel Lopez